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Pierre Vilela – superintendente do INAES

O novo contexto de inovações da agricultura digital, baseado em tecnologias de comunicação e informação, automação e outras, encontraria mais dificuldades de prosperar junto aos agricultores brasileiros do que tecnologias tradicionais, como genética, agroquímicos, etc.?

A agricultura brasileira, do descobrimento até a primeira metade do século XX, se desenvolveu em ciclos econômicos baseados na monocultura ou extrativismo: pau-brasil no início e, posteriormente, cana (açúcar), borracha, tabaco, pecuária (couro) e café.

A partir da década de 1960, uma onda de modernização chegou ao Brasil - apoiada pela genética, insumos químicos e mecanização -, conhecida como Revolução Verde, que surgiu dos esforços em pesquisa e extensão para a recuperação da capacidade produtiva do Hemisfério Norte no pós-segunda guerra.

Desse momento em diante, a agricultura brasileira prosperou com base em ciclos tecnológicos, impulsionados pela criação dos sistemas brasileiros de pesquisa agropecuária, capitaneado pela Embrapa, e de extensão rural, liderado pela Embrater, essa última extinta na década de 1990.

Os avanços tecnológicos permitiram diversificação da produção e a expansão da área agrícola ao longo dos anos 1970 e 1980, inclusive sobre o Cerrado, antes considerado inaproveitável.

Os significativos ganhos em produtividade e qualidade conferem hoje ao país a posição de um dos principais produtores de alimentos do mundo e possibilitou preservar cerca de 60% de seu território com florestas nativas.

É inegável, portanto, que toda essa evolução - e a atual posição que ocupamos - só foi possível pela difusão e adoção de inúmeras tecnologias ao longo dos anos. Ou seja, o agricultor brasileiro não pode ser considerado, absolutamente, refratário ou passivo à inovação tecnológica. Muito ao contrário, através dela vem buscando prosperar.

A título de exemplo, o sistema de plantio direto na palha (SPD) chegou ao Brasil no início da década de 1970, no Paraná. No final da década já havia se expandido para 200 mil hectares de lavouras. Dez anos depois, alcançou 900 mil hectares. No ano 2000 já era aplicado em 15 milhões de hectares e, em 2010, atingiu os 30 milhões de hectares. Estima-se que essa área hoje seja de 32 milhões de hectares.

Devemos considerar que a agricultura brasileira sempre foi caracterizada pela diversidade e heterogeneidade na adoção e uso de tecnologias. Dados do último censo agropecuário, de 2006, apontaram, por exemplo, que apenas 16% dos estabelecimentos agropecuários no Brasil faziam aplicação de calcário e/ou outro corretivo de pH e 36% usavam adubação. Ou seja, tecnologias básicas para uma agricultura produtiva e moderna ainda eram pouco difundidas à época.

Inúmeros estudos disponíveis tentam analisar e determinar as condicionantes e interferentes que explicam a adoção ou não de uma tecnologia pelos vários perfis de agricultores.

Entre os muitos fatores estudados, os mais comuns são: tamanho da propriedade, risco e incerteza, capital humano, forma de domínio sobre a terra, disponibilidade de crédito, trabalho e outros insumos. É possível agrupar esses fatores segundo a natureza das variáveis envolvidas: a) características socioeconômicas e condição do produtor; b) características da produção e da propriedade rural; c) características da tecnologia; e d) fatores sistêmicos (SOUZA FILHO et al., 2011).

No que tange às características da tecnologia, os autores citados acima inferiram que, para tecnologias muito intensivas em recursos informatizados, a adoção está relacionada a certas habilidades cognitivas, sendo estas influenciadas pela idade e experiências anteriores dos agricultores (positivas ou negativas) com outras tecnologias.

Portanto, os fatores fundamentais ou mais críticos são aqueles relativos às características do produtor, que se estendem além do seu perfil educacional, comportamental e cultural, envolvendo também aspectos socioeconômicos e de acessibilidade à inovação, neste último caso traduzindo-se como acesso à informação, chances de contato com a tecnologia, oportunidades de experimentação da tecnologia em menor escala, percepção de utilidade e facilidade de uso.

Voltando à pergunta inicialmente feita, não creio que haverá maior dificuldade para a adoção de tecnologias digitais e de automação em relação às tecnologias tradicionais, se utilizada a correta estratégia para chegar aos mais inovadores (early adopters). Tecnologia e inovação já está no radar desses agricultores e tudo sempre começou a se difundir a partir desses.

A dificuldade está na difusão ou disseminação ampla das tecnologias, considerando que esse primeiro grupo é muito pequeno em relação ao restante. E, em se tratando de startups, a escalabilidade pode ser comprometida. Fazer os agricultores “pensarem e agirem digital” é sim o grande desafio.

Não há uma receita de bolo ou atalhos disponíveis para enfrentar e superar esse desafio. Os empresários e empreendedores que querem enveredar no agro devem estar cientes que os esforços para adoção e, principalmente, difusão serão imensamente maiores que os de desenvolvimento das soluções.

Há mais chances de sucesso quanto mais homogênea for a solução (aplicabilidade, utilidade, facilidade de uso, etc.), para o maior número possível de agricultores dentro desse universo heterogêneo de realidades e necessidades.

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